Marinheiros de primeira viagem

Leia também:
Reflexões sobre Grupo de Gestantes

É quase impossível não se admirar ao se saber que um ser humano completo, composto de trilhões de células, atinge tal estado de complexidade partindo de uma única célula-ovo que sofre múltiplas subdivisões, num espaço de tempo de apenas 280 dias, aproximadamente. Gestantes podem ter a respeito de toda essa complexidade, tanto um grande conhecimento teórico, como apenas parcas noções, mas praticamente todas, de alguma forma se sentirão seres especiais, brindadas com o dom de participar da continuidade da vida.

É comum o uso da expressão "marinheira de primeira viagem", que com certa frequência acompanha o comentário "não sei nada". Podemos afirmar que "não saber nada" nunca corresponde à realidade. Então por que elas utilizam essa expressão? Por que essas manifestações de impotência num momento de tanta potência?

Podemos identificar algumas origens deste sentimento. Passar por tão rápidas e complexas transformações bio-psico-sociais, pode produzir nelas um sentimento de perplexidade. Ao mesmo tempo em que se dão conta da realidade de sua condição de grávidas, coexiste dentro delas alguém que resiste em se acreditar totalmente capaz de cumprir satisfatoriamente todas as etapas, desde a fecundação até o nascimento. Como acreditar na própria competência, se as metamorfoses no exterior e no interior de seu ventre prosseguem, independentemente de uma participação racional de sua parte?

Ser protagonista de acontecimentos tão banais quanto prodigiosos, ocorrendo no próprio ventre, pode levá-las a se sentir quase tão despreparadas quanto uma criancinha que ainda não iniciou sua viagem pelo mundo. Momentaneamente se "esquecem" de que para chegar a desempenhar tantos papéis na família, no trabalho, na sociedade, certamente receberam de alguém, os cuidados básicos, indispensáveis ao seu desenvolvimento físico e mental.

A nosso ver, contido na formulação "não sei nada" há um interessante paradoxo que atenua o risco de confundirem falta de experiência com incapacidade paralisante. É justamente o fato de entrarem em sintonia com as necessidades primitivas do filho, através de mecanismos regressivos, o que pode devolver-lhes bastante da confiança numa experiência que, na verdade, só será testada a posteriori. Mesmo não conservando nenhuma lembrança intelectual destas fases iniciais de vida, estas experiências deixaram registros em sua pele, em seu corpo; traços de memória que lhe forneceram importante bagagem de conhecimentos para o exercício de sua maternidade. Mesmo sem nunca ter tido um bebê nos braços, terão noção de como se sustenta e se embala um bebê; do que o leva a sentir-se objeto de indiferença ou amor.
Daí a importância de, nos cursos preparatórios, sempre que possível, se utilizar de vivências psicológicas, técnicas que estimulem a fantasia dos futuros pais. Isso pode ser a porta de acesso para a validação daquela antiga bagagem. Obviamente os futuros pais e mães tampouco deverão dispensar outras fontes de informação como as obtidas com o médico, leituras, conversas com outras mães, etc. Se estiverem se sentindo suficientemente confiantes, as situações por que forem passando serão recebidas como um estimulante desafio e o bebê será visto como um aliado, no processo de recíproca aprendizagem.

Cláudia Mariante

Claudia Mariante

Psicóloga (CRP 05/0999), Professora de Yoga (ABPY 0320) e coordenadora de grupos de gestantes desde 1989

claudia@grupodegestantes.com.br

Local: PontoHarmonia
Rua Siqueira Campos, 43 sala 636,
Copacabana, Rio de Janeiro, RJ.

Telefone: (21) 2548-0958